Tuesday, April 01, 2014

Na terra das injustiças

Mas, ele também não era de todo ruim. Por mais de 20 anos, perambulou pelo sertão mineiro confrontando autoridades. Fazia justiça  na terra dos  injustiçados. Um lugar quente, de homens frios, que até hoje se agarram a uma política rasteira, astuta e egoísta.



Antônio Dó

E lá, bem lá nas grotas do São Francisco, tinha um que assombrava. Dó mesmo ele só tinha no nome.


Saturday, March 15, 2014

Thursday, March 13, 2014

Original em Bolonha



Este ano, estou realizando um velho sonho. Acalentado por noites e dias na prancheta em meio a tintas, pincéis e papéis. Um original meu estará exposto na mais importante feira do livro infantil do mundo: Bolonha.  Isso mesmo! Como fiquei honrado em ter sido um dos escolhidos. Emocionante mesmo. Foi esse menino aqui, ó, que deu essa alegria pra esse outro menino que vos escreve.


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Thursday, March 06, 2014

Rejeitados



Há uns 2 anos, me pediram para escrever um artigo com a minha visão sobre Clara dos Anjos, romance do Lima Barreto que adaptei para os quadrinhos. O artigo não foi aceito. Minha visão acabou sendo muito pessoal porque vi na obra do autor semelhanças com o meu subúrbio. Erro fatal. De qualquer forma, compartilho com vocês. Ah, e logo abaixo, também recusada, a capa que eu e o Wander sugerimos para o livro.

Tão longe, tão perto 

       Inesperadamente, o cheiro do subúrbio invadiu meu estúdio. Talvez o objetivo fosse me preparar para o telefonema que viria a seguir. Do outro lado da linha, um editor com uma proposta para adaptar para os quadrinhos Clara dos Anjos, romance escrito por Lima Barreto (1881-1922), um dos mais instigantes escritores brasileiros. 
     
          - Será um prazer, mas primeiro deixe-me conhecer melhor o universo barreteano...
     
          Mentira, eu já conhecia. Aos dois anos, dentro de um caixote de maçãs argentinas,comecei a tatear aquele mundo estranho, povoado por negros, brancos e pardos em uma área suburbana de Minas Gerais. Revi a panela preta suja de fuligem da vizinha que tomava conta de mim enquanto meus pais trabalhavam fora. A galinha trêmula e sem cabeça na porta da cozinha,enquanto seu sangue escorria aparado pela bacia para o molho pardo do almoço. O carvão que eu fazia de lápis para rabiscar as paredes por onde passei.          
          Aceito o desafio, eu e o roteirista Wander Antunes traçamos alguns planos que julgamos úteis para nos guiar pelo complexo universo do autor. Já a primeira página do livro pedia uma visão geral do subúrbio, com suas construções e estrutura urbana peculiar. Munido de farto material imaginário, aos poucos recolhi também materiais iconográficos disponíveis: fotos, gravuras e pinturas serviriam para alguma inspiração. Mas havia carência de material descritivo e fotográfico suficiente para me apoiar. Em suas descrições, Lima só disse que as construções suburbanas do Rio de Janeiro eram caóticas e que privilegiavam o aspecto funcional com seus “puxadinhos” em detrimento da estética. Nem mesmo nos registros do fotógrafo Augusto Malta (1864-1957), um dos mais importantes do início do século XX, encontrei elementos significativos daqueles lugares distantes. Era preciso pesquisar mais para chegar à representação Testei alguns materiais, inclusive o uso dos softwares gráficos para colorização das pranchas. Mas o resultado era límpido e uniforme demais para retratar aquele universo. Voltei à prancheta e cheguei à conclusão de que o subúrbio é como a aquarela e sua mistura de cores que se fundem, revelando outras, surpreendentes e inesperadas. 
   
          Assim reencontrei aquele ambiente, com seus habitantes tanto rudes quanto suaves, que na obra de Lima Barreto se associam, formando inocência e revolta. Suas paredes encardidas pediam ocres e sienas. Seus olhos tristes gritavam por Payne's grey, um cinza como a alma daquele povo sem sorte. O subúrbio de Lima era notadamente um lugar à parte, como um órfão que fora relegado e que não recebia qualquer tipo de assistência. Entendi que o escritor carioca queria contar a história do abandono e de suas consequências. Aquela vizinhança sem pai e sem mãe, de ruas tortas e casebres sem graça, era, para o autor, a exteriorização de um povo sem norte e carente, domesticado e de fácil manejo. A personagem Clara dos Anjos é uma metáfora da periferia negra e pobre. É a encarnação da falta de perspectiva e que vê em Cassi Jones, branco e rico, uma esperança de mudança, uma passagem para fazer a viagem inversa e ser finalmente aceita e adotada pela própria sociedade que a abandonou. Ali estava eu, imerso naquela realidade, a bordo daquele trem que ligava dois mundos tão distintos: subúrbio e cidade. No banco, à minha frente, uma senhora de ar aristocrático com suas três filhas. Ao seu lado, um gordo ensebado que dormitava. Vi também Cassi Jones, o grande personagem do livro, que sem cerimônia nem pudor jogava gracejos para a mais velha das meninas. Aqueles passageiros eram exatamente como a gente do meu subúrbio, no sertão mineiro, que só queriam uma passagem de volta e, ao invés disso, encontravam os ludibriadores que lhes eram superiores em posses e letras. No fundo do vagão, eu juro que vi Lima Barreto, com um pequeno caderno no qual anotava tudo que observava ao seu redor, suas impressões e juízos. Entre o seu subúrbio e o meu, apenas a falta de malícia ficou para trás.

Marcelo Eduardo Lelis de Oliveira é ilustrador do jornal O Estado de Minas e do quadrinho Clara dos Anjos, de Lima Barreto (Quadrinhos na Cia, 2011).